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ESG: letras que precisam caminhar juntas

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Fabio Brasiliano*

De tempos em tempos, o mercado se depara com novos acrônimos e siglas cujo significado pode ou não ser perene. É como uma sopa de letrinhas, cujo caldo quente pode derreter algumas delas e fazê-las cair em desuso, enquanto outras têm relevância suficiente para se manterem firmes até que se tornem uma prática fundamental dentro das organizações. Neste banquete corporativo, o prato da vez é o ESG – sigla que vem do inglês Environmental, Social and Corporate Governance, que pode ser traduzida para Governança Ambiental, Social e Corporativa.

Assim como outras siglas que envolvem o universo da Sustentabilidade, o ESG poderia ser considerado apenas mais uma onda. Mas não é. Para se chegar a ele, é preciso falar de responsabilidade social, de valor compartilhado e de sustentabilidade corporativa, compreendendo que seu verdadeiro valor vai além da temporalidade dos termos. Estas três letras significam temas cuja preocupação só deve aumentar no futuro, uma vez que as novas gerações já mostram outros valores e comportamentos. Nossos sucessores dentro das empresas terão visões muito mais avançadas sobre as questões relacionadas ao ESG e seguirão com suas mentalidades oxigenadas até que ocupem cargos de decisão. Ou seja, as empresas que não consideram o ESG hoje não estão preparadas para o futuro.

O mais impressionante é que a sigla ESG surgiu pela primeira vez em um relatório de 2005, intitulado “Who Cares Wins” (“Ganha quem se importa”, em tradução livre), resultado de uma iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas. Porém, quase seis anos depois, dificilmente encontramos iniciativas que orquestrem as três letras – normalmente, aqui no Brasil, elas podem ser vistas em grandes corporações.

Aqui no Brasil, as empresas ainda engatinham e consideram ações isoladas para apresentarem seus relatórios anuais de melhores práticas. São documentos suntuosos que mais parecem uma ação de marketing, e quando você olha de perto, eles realmente o são. Quando as companhias são requisitadas para mostrar o que de fato vêm fazendo, percebe-se que precisam pescar iniciativas espalhadas por diferentes setores, sem que estas façam parte de um framework único, além de não serem acompanhadas por indicadores que permitam o monitoramento dos benefícios de uma visão inovadora.

Em minha opinião, grande parte das iniciativas brasileiras para ESG ainda não traduzem uma visão de futuro; elas ocorrem por um desejo de atender uma demanda empurrada pelo simples fato de que é preciso começar. Entretanto, são ações que acontecem sem planejamento estruturado e não conversam com outras estratégias da companhia e, portanto, perdem valor porque fazem pouco sentido.

Sobre a letra E, as empresas precisam acompanhar as mudanças de valores da sociedade e entender melhor as demandas socioambientais, como biodiversidade, gestão de resíduos, impacto das operações no meio-ambiente, pegada de carbono e afins. Já a letra S é a mais crítica, já que a diversidade é um tema demandado hoje em dia e se antecipar a essas tendências traz reconhecimento. Só que, para isso, é importante saber ouvir e não simplesmente mandar uma mensagem de marketing para as partes interessadas, impondo crenças. Há muitos programas sociais necessitando de apoio, mas que estão completamente fora dos valores da companhia. As ações devem representar o que a empresa valoriza ou quer inspirar.

A relevância do G está no propósito e no desdobramento e conexão destes pilares e objetivos ambientais e sociais, em conjunto com os objetivos estratégicos da organização. Ele incorpora algumas das disciplinas de governança que ainda possuem espaço para desenvolvimento, como por exemplo o compliance e o gerenciamento de risco, assuntos fundamentais nas empresas. Existe um caminho de maturação do mercado e, mais cedo ou mais tarde, isso vai acontecer.

Assim que as empresas descobrirem que é preciso costurar as estratégias e incluir as três letras em seus planejamentos anuais, elas perceberão muito mais valor no seu processo de inovação e, consequentemente, mais sucesso no futuro, já que seu portfólio vai estar mais alinhado com os valores da sociedade. É uma questão cultural e leva tempo. Mas os grandes líderes já entenderam que o ESG é uma jornada, e não um destino final.

*Fábio Brasiliano é CEO e fundador da Brasiliano Consultoria. É professor de programas de MBA e pós-graduação, além de palestrante. Foi diretor do Ministério do Meio Ambiente.

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