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Por que lembrar?

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Memorial to the Murdered Jews of Europe in Berlin downtown, Germany.
Rows of rectangular concrete blocks with narrow alleys between them, trees holocausto nazismo –
(crédito: Reprodução/Freepik/EUGENIU FRIMU)
Claudio Lottenberg é Presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde (Icos) –

Infelizmente, temos visto, repetidas vezes, que o ódio nunca desaparece em forma de discurso e em forma de atitudes. O ódio apenas se esconde, esperando para ressurgir sempre que receber um pouco de tolerância. Não tem sido raro em nosso país vermos suásticas, manifestações antissemitas e até mesmo o negacionismo e a banalização do Holocausto — esta, sim, que se transformou num objeto grosseiro de comparações com o que não se compara.

Olhando os poucos sobreviventes que ainda vivem e conhecendo a história, acredito ser um milagre o povo judeu não ter abandonado todos os seus ideais. E essa força não ficou no plano individual. Ela se estendeu e se estende ao plano coletivo, no exercício da solidariedade.

Temos os exemplos das entidades judaicas do Brasil, como a Unibes, responsável por dezenas de milhares de pessoas na assistência social na grande maioria não judeus, ou do Hospital Israelita Albert Einstein, criado e mantido por essa comunidade e que, hoje, atua em três hospitais públicos, sendo dois em São Paulo e um em Aparecida de Goiânia. Não preciso dizer que esses atendimentos dão suporte ao sistema único de saúde em caráter universal e não dedicado à comunidade judaica.

Não são poucos os indícios de que os discursos de ódio precedem momentos trágicos na história da humanidade. O Holocausto representa o ápice deste cenário, no qual milhões sucumbiram como uma resposta a um silêncio manifesto de uma sociedade. De tempos em tempos, temos uma luta semelhante sobre a democracia e, por isso, devemos nos preocupar com nosso sistema de governança.

Ironicamente, a tolerância de múltiplas visões, mesmo as antidemocráticas, permite que a democracia seja ameaçada. À medida que as crenças antidemocráticas criam raízes, elas podem se espalhar como uma pandemia. E, como as pandemias, as crenças antidemocráticas se naturalizam no território da democracia. Quando não controladas, essas crenças antidemocráticas matarão o hospedeiro (nossa nação), que as nutre. É nosso dever e desafio, como cidadãos, eliminar as tendências tirânicas e autoritárias, em nós mesmos e nos outros.

Ao escolher a democracia, devemos mostrar tolerância com ideias das quais discordamos. A opção pela intolerância abandona nossos valores democráticos e abre espaço aos verdadeiros inimigos de nossa Constituição. Devemos argumentar, debater e deliberar de boa-fé. E devemos estar dispostos a ouvir, aprender e mudar de ideia. Estamos em um processo de reimaginar como esses valores serão incorporados nos próximos 100 anos e precisamos ajudar uns aos outros enquanto trabalhamos com as questões difíceis que o processo levanta. Precisamos estar de braços dados para defender os ideais e valores da democracia e enfrentar nosso verdadeiro inimigo comum: a intolerância e o discurso de ódio. Muitas vezes, permitimos-nos fechar os olhos e permanecer indiferentes às incidências de preconceito e violência com base em religião, raça, etnia, nacionalidade ou status de imigração. Essa tendência deve ser revertida para evitar que a história se repita.

E, afirmando que não precisamos de algo tão odioso quanto o holocausto, quero expressar que toda e qualquer indiferença em relação a qualquer ser humano, dentro e fora de nossa sociedade deve ser apurado. Nada se compara ao Holocausto, mas não posso deixar de registrar que devemos lutar para que a sociedade lute pelo esclarecimento daquilo que houve junto ao povo ianomâmi. Digo isso porque, como minoria, não podemos calar quando algo acontece com outra minoria. E, nas palavras de Elie Wizel, num mundo que deve lutar pelo entendimento, ele diria que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. E nós não somos indiferentes.

Nossa comunidade expressa seu repúdio em nome de milhões de almas judaicas e não judaicas, o seu sentimento de pesar, mas também sua preocupação com a ameaça da intolerância e do discurso de ódio. Não podemos imaginar que as liberdades individuais sejam subtraídas em pleno século 21.

E, dentro desse contexto, fica a liberdade de expressão. O direito a ela é pétreo, mas toda liberdade esbarra nos limites quando ultrapassa o respeito individual. O Holocausto é uma mancha incomparável na história da humanidade. Não pode e não será banalizado, com comparações frequentes e infundadas. Não podemos permitir que recrudesçam movimentos como o nazismo, que fez das diferenças um instrumento de alimento mortífero, acentuando um sentimento responsável pelo extermínio de judeus, homossexuais, negros, romanis, deficientes. Não há como comparar o incomparável e trazer esse cenário para os dias de hoje significa manter vivo o nosso compromisso de respeito à diversidade, o nosso propósito de defesa da democracia e o nosso respeito às almas que, em nome dessa defesa, sucumbiram, o que não pode ter sido em vão. Holocausto nunca mais.

Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense

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