Pesquisadores descobriram uma possível ligação entre tatuagens e um maior risco de câncer, especialmente linfomas –
Victória Anhesini/infomoney.com.br –

Quais são as consequências de uma tatuagem? Se o desenho for feito com material esterilizado, com profissionais qualificados e com os cuidados com a cicatrização, não há muito que pode acontecer. Porém, um novo estudo mostra que existe a possibilidade de consequências mais severas.
O estudo, publicado em janeiro deste ano na revista científica BMC Public Health, analisou os dados de três mil irmãos gêmeos da Dinamarca, tentando relacionar o surgimento de câncer e linfomas em pessoas tatuadas.
A pesquisa foi feita pela Universidade do Sul da Dinamarca (SDU) em colaboração com a Universidade de Helsinki, na Finlândia.
Os resultados mostraram que pessoas com tatuagens, especialmente as de grande porte (maiores que uma palma da mão), apresentaram maior probabilidade de diagnóstico de câncer. No caso do linfoma, o risco foi até três vezes maior.
O estudo é do tipo observacional, isso significa que ele analisou, de forma retrospectiva, a presença de tatuagens e casos de câncer, buscando identificar uma relação entre eles. Esse tipo de pesquisa pode apontar associações importantes, mas não comprova que ter tatuagem causa câncer.
Especialistas ouvidos pelo jornal O Globo consideram os resultados relevantes, mas ressaltam que eles devem servir como ponto de partida para novos estudos. Ainda não existem dados o suficiente para alertar a população ou causar preocupações
Ao portal de notícias, o médico hematologista do A.C.Camargo Câncer Center, Arthur Braga, afirma que atualmente, o foco está na busca de fatores de risco para o câncer, e essa nova pesquisa mostra evidências para começar uma discussão, que precisa ser aprofundada.
Carlos Chiattone, coordenador do Comitê de Linfomas da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), disse ao portal que os estudos observacionais podem não identificar um possível terceiro motivo que pode levar ao maior risco de câncer.
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O estudo destacou o linfoma como o principal tipo de câncer observado. O linfoma é um câncer do sangue que se origina no sistema linfático, uma rede de vasos, gânglios (também chamados de nódulos ou linfonodos) e órgãos como timo, baço e amígdalas. Esse sistema é responsável por produzir e transportar linfócitos, células de defesa do organismo.
De acordo com os pesquisadores dinamarqueses, existe a possibilidade que ao longo do tempo, a tinta da tatuagem pode penetrar na pele e ser absorvida pelos linfonodos. A partir daí, poderia desencadear um processo de inflamação crônica, que, com o tempo, levaria ao crescimento descontrolado de células, resultando no desenvolvimento do câncer.
Outros estudos similares
Outros estudos publicados anteriormente encontraram algumas relações entre tatuagens e linfomas, mas nada completamente conclusivo. Em um estudo da Universidade Lund, na Suécia, publicado no eClinicalMedicine, analisou dados de 1,4 mil casos da doença, comparando-os com 4,2 mil indivíduos saudáveis, diagnosticados entre 2007 e 2017.
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Em nota à imprensa, Christel Nielsen, líder do grupo de estudo, afirmou que “o risco de desenvolver linfoma era 21% maior entre as pessoas tatuadas”, mas a pesquisa não tinha encontrado uma relação entre o tamanho da tatuagem e o risco.
Ainda, outro estudo da Dinamarca apontou associações entre tatuagens e um maior risco de câncer de pele, mas sem evidências suficientes. Ao Globo, Doluval Lobão, chefe da Dermatologia do Instituto Nacional de Câncer (Inca), explica que não há robustez sobre a indução do câncer por conta das tatuagens. Ele explica, entretanto, que é possível que alguém tenha uma lesão pré-malignas e tatuagens próximas podem dificultar a observação e a identificação.
O que acontece com a pele quando nos tatuamos?
Segundo a médica dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Mayla Carbone, a tatuagem é feita através da introdução de pigmentos na derme, camada intermediária da pele.
As agulhas perfuram a epiderme, a camada mais superficial, e em seguida depositam os pigmentos na derme, onde eles ficam “aprisionados”. Como essa camada intermediária não se renova da mesma forma que a superficial, ela se torna permanente e sempre visível.
“Do ponto de vista dermatológico, o corpo enxerga o pigmento como um corpo estranho. Por isso, logo após o procedimento, ocorre uma resposta inflamatória natural, que é parte do processo de cicatrização”, disse.