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Real, a moeda forte

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por André Galhardo – 

Moedas de 1 real em sequência

Visão Geral

A moeda brasileira ganhou força expressiva nas últimas semanas e tem se destacado como uma das divisas com maior valorização em relação ao dólar no mundo.

Mas afinal, depois de um crônico processo de desvalorização, o que tem produzido esse avanço do real sobre as demais moedas?

Mais que isso, quanto tempo esse movimento pode durar?

Quer saber um pouco mais? Acompanhe nossa análise a seguir.

Taxa real de juros

Em primeiro lugar, devemos considerar que a taxa básica de juros, antes no menor nível da história, 2%, hoje é uma das maiores taxas do planeta, 10,75%.

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É verdade que a taxa de inflação, atualmente acima dos dois dígitos, deixa os rendimentos dos títulos públicos um pouco menos atrativos aos investidores, mas o Banco Central do Brasil segue firme nos aumentos da Selic e a gente ainda deve ver, pelo menos, dois aumentos nas próximas reuniões.

Selic e inflação à parte, o que temos de concreto é que, a atual política monetária brasileira tem ajudado a produzir um importante fluxo de capitais estrangeiros ao país.

O mercado de títulos públicos e outros títulos de dívida privados tornaram-se um grande negócio à medida que a moeda brasileira passou a ganhar força em relação às demais divisas.

Quando o real se valoriza em relação às demais moedas, o investidor estrangeiro ganha a remuneração por ser detentor dos títulos que tem em mãos e pelo diferencial da taxa de câmbio entre o momento da compra e o momento da venda destes ativos.

O ganho a partir das diferenças nas taxas de câmbio é chamado de carry trade, e esse tipo de movimento tem sido potencializado a partir da valorização da moeda brasileira.

Juros e câmbio forte têm sido uma importante combinação para atrair capital estrangeiro ao país.

Mercado de capitais abaixo do preço

Desde o começo do ano até o dia 11 de fevereiro, o Brasil havia registrado saldo positivo no movimento de câmbio contratado, ou seja, os registros mostram que tem entrado mais dólar no país do que saído.

Dados do Bacen mostram que esse saldo positivo, até o dia 11 de fevereiro, havia chegado ao valor de US$6,6 bilhões.

Não parece muito mas, nos últimos seis anos, o saldo ficou negativo em 5 oportunidades. Apenas em 2017 o saldo do movimento de câmbio contratado ficou positivo, ainda assim em míseros US$625 milhões.

O que há de “novo” nos números de 2022 é o destino dos recursos estrangeiros aqui no nosso país. Enquanto as operações ligadas à parte comercial, ou seja, importações e exportações, registraram saldo negativo de US$3,6 bilhões, as operações para aquisição de ativos financeiros apresentaram saldo positivo em pouco mais de US$10,1 bilhões.

De 2016 a 2021, os saldos de câmbio contratados foram prejudicados pelos números negativos das operações financeiras.  Em 2019, por exemplo, muito antes dos problemas da pandemia, as operações para aquisição de ativos financeiros registraram saldo negativo de mais de US$62,2 bilhões.

Mas então porque a direção do vento mudou em 2022? Uma das respostas vem do desgaste econômico produzido pela pandemia.

Muito antes da pandemia ser uma preocupação global, o Brasil já vinha em um intenso desgaste político e um crônico processo de desvalorização do real. 

A pandemia apenas intensificou esse movimento e acabou trazendo fortes impactos negativos sobre o mercado de capitais local.

Em resumo, como os reflexos da pandemia recaíram sobre uma economia combalida, isso acabou produzindo uma forte queda nos preços das ações.

E agora, como o Brasil está muito “barato”, isso também tem atraído capitais externos.

Normalização dos fluxos de capitais estrangeiros

Como diria o saudoso mestre Celso Furtado, a simples notícia de uma crise econômica já produz estragos em economias subdesenvolvidas como o Brasil.

Isso acontece porque, sempre que aumenta o temor de uma crise econômica ou financeira, os capitais investidos em ativos menos seguros como moedas e ativos financeiros de países da periferia, buscam refúgio em praças onde o risco de perder dinheiro é menor.

Imagine o seguinte: qual país pode ter mais problema fiscal com os efeitos da pandemia, Brasil ou Estados Unidos? Certamente o nosso Brasil está mais sujeito a problemas fiscais, além disso, problemas fiscais brasileiros são resolvidos com a emissão de títulos em reais enquanto a dívida norte-americana está alicerçada em dólar, muito procurados, com ou sem crise.

Com a possibilidade de que a Ômicron represente o início do fim da pandemia, os capitais especulativos voltaram a buscar ambientes com possibilidade de maior rendimento, ainda que isso implique em risco um pouco maior.

A diminuição do clima de incerteza produzido pela pandemia tem feito com que os investidores deixem seus portos seguros para “arriscar” em ambientes com um risco um pouco mais elevado, mas com retornos muito mais interessantes, e neste caso, o Brasil é destaque mundial.

Por aqui a taxa de juros está em forte elevação, o que abre um monte de possibilidades de investimento em títulos públicos. As ações estão relativamente abaixo do preço justo, principalmente se compararmos com os índices das bolsas americanas que, mesmo diante de um iminente colapso da economia global, seguiam em trajetória de elevação.

Em suma, os investidores estão mais confiantes em buscar novos ambientes para multiplicar o seu capital e isso tem produzido um movimento interessante de recursos ao Brasil.

Perspectivas para o dólar

Como 2022 é ano de eleição, nós economistas não esperávamos por um movimento tão intenso de valorização da nossa moeda em relação ao dólar.

O primeiro Boletim Focus divulgado este ano previa o dólar a R$5,60 ao final do mês de janeiro e em R$5,59 ao final do mês de fevereiro. No dia 21 de fevereiro, a cotação do dólar havia alcançado R$5,10, o menor valor desde 29 de julho de 2021.

Apesar da valorização da moeda brasileira vista neste começo de ano, que, diga-se de passagem, pode continuar, 2022 continua sendo ano de eleição e isso deve produzir aumento no clima de incerteza.

A disputa política doméstica poderá impedir que esse movimento de valorização prevaleça por muito tempo.

Além disso, as tensões geopolíticas do leste europeu e a normalização da política monetária dos Estados Unidos não devem “passar em branco” pelo nosso câmbio.

Portanto, apesar da tendência de valorização no curto prazo, para períodos mais longos a situação cambial brasileira está totalmente em aberto.

ANDRÉ GALHARDO

Economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, professor e coordenador universitário nos cursos de Ciências Econômicas. Mestre em Economia Política pela PUC-SP, possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público.

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